Primeira infância: qual o papel dos pais e da escola?


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Várias são as questões que afligem os pais em relação à criação dos filhos: quando e como dizer não; qual é a melhor forma de acompanhar  meu filho na escola e se acredito nela; é importante interagir com pais dos colegas do meu filho; a minha convivência com ele é suficiente; sou presente? De acordo com Ana Paula Rezende Bartolomeu, psicóloga e diretora da Trilha da Criança Centro Educacional, essas preocupações são totalmente pertinentes.

Conviver de forma saudável com os filhos e ser criterioso sobre a escolha da escola, especialmente na primeira infância (zero a seis anos) é, de acordo com ela, fundamental na formação das crianças, uma vez que é justamente nessa etapa que ela vai se desenvolver. “Ser presente, interagir e brincar faz com que as crianças sejam protagonistas de seu próprio desenvolvimento, aprendendo no seu tempo e, assim, desenvolvendo seu psicossocial. E nesse contexto pais e escola têm papeis cruciais”, reitera.

Estímulos emocionais e cognitivos realizados na primeira infância são comprovadamente fundamentais para desenvolver as funções cerebrais. Dessa forma as possibilidades de aprendizagem são ampliadas. Quando esses estímulos não são feitos de forma adequada, o desenvolvimento da criança, de acordo com Ana Paula, acontece de forma mais lenta e menos efetiva. “É por meio dos estímulos que se consegue desenvolver nas crianças vários tipos de inteligência e outros mecanismos, como a memoria e a corporeidade, que é a capacidade de usar o corpo para interagir com o mundo externo”, explica.

Pais e filhos

A melhor forma de criar os filhos é uma questão que, de acordo com Ana Paula, nunca terá uma resposta exata, porém há vários caminhos que podem ser seguidos na busca por uma educação mais completa. “A primeira questão é: você é um exemplo para o seu filho? Ele pode se espelhar em você? De nada adianta impor regras e conceitos que você, como pai, faz inverso. Os filhos vão sempre imitar os pais nas suas próprias atitudes”, alerta.

Dizer não é outra questão que muitos pais não sabem lidar. Nos tempos atuais, em que geralmente pai e mãe trabalham o dia todo, a forma que muitos encontram para tirar de si a “culpa” por não estarem presentes o tempo que gostariam, é fazendo todas as vontades do filho. Um livro, escrito em 1762 pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau, permanece atual até os dias de hoje. Em “Emílio ou Da Educação“, ele diz: “Sabe qual é a maneira mais certa de deixar seu filho infeliz? Acostumá-lo a receber tudo.”

Segundo Rousseau, se você der tudo a uma criança, seus desejos só farão crescer devido à facilidade em satisfazê-los e ela terá de lidar então com sua própria ansiedade, com sua tirania e com a decepção de o pai, em algum momento, parar de atendê-lo, já que satisfazer tudo é impossível. “São sentimentos muito mais difíceis de administrar para uma criança, e que causam mais dor do que simplesmente ter um desejo negado”, diz Rousseau.

Escola, pais e filhos

Nesse contexto, a escola também tem papel fundamental no desenvolvimento e formação da criança em sua primeira infância. Pesquisas indicam a importância de uma boa orientação escolar nos primeiros anos de vida, que estimule a linguagem e a alfabetização em um ambiente rico em termos de linguagem, abrangendo áreas de desenvolvimento e que enfatizem o vocabulário expressivo e receptivo, alfabetização e operação com números.

Porém, além de escolher uma escola que estimule os filhos, é essencial que os pais participem ativamente da sua vida escolar. “No caso da Trilha da Criança Centro Educacional, buscamos trazer os pais para dentro da escola, por meio do ‘Pais na Trilha’, quando realizamos palestras com o intuito de despertar neles questões que permeiam seu envolvimento em relação à educação de seus filhos, em todos os âmbitos”, explica Ana Paula. 

Dicas para melhorar o desempenho escolar do seu filho

Não deixe para ir à escola somente quando aparece um problema – Ir à escola somente quando você é convocado para resolver algum problema da criança não vai fazer tanta diferença. Manter uma parceria com a escola e os professores, frequentando reuniões e se informando sobre o conteúdo desenvolvido em cada matéria é essencial. As crianças, especialmente as mais novas, se sentem mais seguras e confiantes quando percebem essa ligação entre pais e professores. 

Crie um vínculo de comunicação – Perguntar sempre como foi o dia de aula, o que os filhos aprenderam e se passaram por alguma dificuldade são algumas das questões iniciais para estabelecer o vínculo com as crianças sobre o assunto. O intuito não é pressionar e sim agir com afeto. Esse tipo de atitude fará com a criança se sinta, desde os primeiros dias na escola, à vontade para contar o que ela fez no dia, do que gostou e do que não gostou.

Acompanhe os deveres de casa – Às vezes os pais trabalham tanto que lhes sobra pouco tempo para observar os deveres de perto, mas é importante que um dos dois realize esta função. Acompanhar o que a criança está aprendendo na escola aumenta a motivação e relacionar aquele conhecimento a uma lembrança real pode tornar o conteúdo ainda mais significativo.

Estabeleça uma rotina –  A criança deve perceber que é muito mais proveitoso estudar um pouco por dia do que deixar para estudar na última hora.

Organize um espaço para os estudos – Este espaço deve ser aproveitado, de preferência, em um horário fixo e nobre do dia. É recomendável que seja um lugar tranquilo, iluminado, limpo e organizado para o momento, onde nada possa tirar a concentração da criança. Televisão, videogame ou o irmãozinho mais novo fazendo bagunça devem ficar longe. Materiais de consulta, como livros e acesso supervisionado à internet, ficam perto. 

Leia com prazer – Se dentro de casa a leitura é estimulada e encarada como um momento de lazer e prazer, será mais fácil para as crianças se adaptarem ao mundo dos estudos. Os pais devem conversar com os filhos sobre o livro, revista ou jornal que estiverem lendo, além de deixar livros ao alcance das crianças. Até mesmo fazer a lista de compras do supermercado ao lado do filho menor pode ser um estímulo. 

Relacione o que acontece na escola ao que acontece em família – Conectar os programas de família ao conteúdo da escola amplifica o conhecimento. Se a criança estiver estudando sobre rios e mares, ou sobre como a energia elétrica chega à casa de cada um, viajar para Itaipu ou Foz do Iguaçu durante as férias pode ser mais produtivo do que levá-la para a Disney. Ela agrega e amplia os horizontes. Passeios e brincadeiras também são aliados da aprendizagem.

Não espere seu filho virar adolescente para participar da educação dele – Uma família que sempre participou e esteve junto com as crianças durante as lições e provas dificilmente terá um adolescente que não se esforça nos estudos. Nesta fase, os pais precisam tomar cuidado para não pressionar os filhos ou serem invasivos. E isso só é possível se houver uma relação sólida construída.


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